rebeldes mostram imagens do corpo de Gaddafi
Abdel
Hafiz Ghoga, vice-presidente do CNT (Conselho Nacional Transitório),
que governa a Líbia, confirmou nesta quinta-feira (20) em entrevista
coletiva realizada em Benghazi a morte do ex-ditador Muammar Gaddafi.
"Gaddafi foi morto em poder dos rebeldes", disse Ghoga.
Uma fonte do escritório de informação do Conselho Local da cidade de
Misrata havia informado à Agência Efe que Gaddafi morreu durante a
tomada da cidade de Sirte, sua cidade natal, pelos insurgentes de
Misrata, uma das cidades que resistiu ao assédio das forças pró-Gaddafi
durante o conflito armado que começou em 17 de fevereiro. A fonte
explicou que Gaddafi estava em um cativeiro no porão de uma casa em
Sirte, cercada há vários dias pelos rebeldes.
Aparentemente, quando desceram para detê-lo, houve um tiroteio entre
os rebeldes e a guarda pessoal do ex-ditador, que foi ferido e morreu
minutos depois. As ruas de Trípoli ficaram repletas de pessoas que
festejaram a notícia, como foi constatado pela reportagem da Agência
Efe, e espera-se que o presidente do conselho rebelde, Mustafa Abdel
Jalil, conceda em breve uma entrevista coletiva.
Rússia
O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, disse hoje que "o destino do
ditador Muammar Gaddafi deve ser decidido pelo povo líbio".
- Esperamos que a paz seja restabelecida na Líbia e aqueles que
dirigem o Estado possam chegar a um acordo sobre o sistema de governo.
Medvedev afirmou em março que Gaddafi era um "cadáver político" que "não tem lugar no mundo civilizado moderno".
A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Beth Gosselin,
declarou hoje à agência Reuters, por sua vez, que está trabalhando para
confirmar se Gaddafi foi capturado ou morto. A informação de que o
ex-ditador acabou preso e assassinado foi confirmada pelo governo
provisório da Líbia.
- Nós vimos as informações na mídia, mas não podemos confirmá-las.
Autoridades da Casa Branca não estavam imediatamente disponíveis para
comentar. O Pentágono também disse que não poderia confirmar as
informações.
Corpo escondido
O corpo do líder líbio deposto Muammar Gaddafi está sendo levado para
um lugar secreto por razões de segurança, disse Mohamed Abdel Kafi,
membro do CNT.
Em Bruxelas, a Otan confirmou ter atacado dois veículos militares
perto de Sirte. Os aviões da aliança militar atingiram dois veículos
militares das forças pró-Gaddafi que integravam um grupo maior nas
redondezas de Sirte.
O porta-voz militar da Otan, coronel Roland Lavoie, disse que os
veículos armados conduziam operações militares e representavam uma clara
ameaça aos civis.
Filho detido
Mutasam Gaddafi, um dos filhos do ex-ditador líbio, foi detido pelas
forças rebeldes em Sirte, informou à Agência Efe em Benghazi o porta-voz
do CNT (Conselho Nacional de Transição), Shams Eddin.
Mutasam, médico de formação, havia assumido o papel de conselheiro de
segurança de seu pai e, segundo os dirigentes rebeldes, era o
responsável pelas brigadas fiéis ao antigo regime que combatiam as
forças do CNT em Sirte, cidade natal do líder líbio.
UE fala em processo de reconciliação
A morte do ex-líder líbio Muammar Kadafi representa "o final de uma
era" naquele país, segundo os principais dirigentes da União Europeia
(UE), que pediram nesta quinta-feira as novas autoridades uma política
de reconciliação.
fim do ditador "marca o fim de uma era de despotismo e repressão que
se estendeu por tempo demais pelo povo líbio", indicaram em uma
declaração conjunta os presidentes do Conselho Europeu, Herman van
Rompuy, e da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.
"Líbia pode nesta quinta-feira virar uma página em sua história e empreender um novo futuro democrático", afirmaram.
Van Rompuy e Barroso pediram ao CNT (Conselho Nacional de Transição)
que coordenem "um processo de reconciliação" dirigido a todos os líbios e
permitam "uma transição democrática, pacífica e transparente no país".
Excêntrico, Gaddafi estava no poder desde 1969
O avanço rebelde sobre a capital da Líbia, Trípoli, e sobre a cidade
natal do coronel Muammar Gaddafi, Sirte, pôs um fim definitivo ao
governo do líder que permaneceu mais tempo no poder tanto na África
quanto no mundo árabe.
Gaddafi, de 68 anos, estava no comando da Líbia desde que depôs o rei
Idris 1º, em 1969, em um golpe de Estado sem derramamento de sangue,
quando tinha 27 anos.
Conhecido por seu estilo extravagante de se vestir e pelas
guarda-costas do sexo feminino, o líder líbio também é tido como um
político habilidoso, que conseguiu tirar seu país do isolamento
diplomático.
Em 2003 - depois de passar duas décadas sendo visto como país pária -
a Líbia assumiu responsabilidade pelo atentado contra um voo da PanAm
sobre a cidade escocesa de Lockerbie, em 1988, abrindo caminho para que a
ONU suspendesse suas sanções contra o país.
Meses depois, o regime de Gaddafi abandonou os esforços para
desenvolver armas de destruição em massa, o que também facilitou a
aproximação com o Ocidente.
Por causa das duas medidas, Gaddafi deixou o isolamento e passou a
ser aceito pela comunidade internacional, ainda que com ressalvas.
'Ele é único em seu discurso, em seu comportamento, em suas práticas e
em sua estratégia', disse à BBC o analista de política líbia Saad
Djebbar. 'Mas é um politico astuto, e um sobrevivente político.'
Raízes beduínas
Gaddafi nasceu no deserto líbio, perto de Sirte, em 1942. Em sua
juventude, ele admirava o líder egípcio e nacionalista árabe Gamal Abdel
Nasser.
Ele começou a fazer planos para derrubar a monarquia líbia durante
seus estudos militares, e recebeu treinamento militar no Reino Unido
antes de retornar à cidade líbia de Benghazi, onde deu início ao golpe
que o levaria ao poder, em 1º de setembro de 1969.
Em seu Livro Verde, lançado nos anos de 1970, Gaddafi expôs sua
filosofia política, apresentando uma alternativa nacional ao socialismo e
ao capitalismo, combinada com aspectos do islamismo.
Em 1977, ele criou o conceito de "Jamahiriya" ou "Estado das massas",
em que o poder é exercido por meio de milhares de "comitês populares".
Gaddafi gostava de prezar tradições locais em público. Quando
visitava outros países, acampava em uma luxuosa tenda beduína, típica
dos povos de sua região.
Durante as viagens, o coronel era protegido por guarda-costas mulheres - que dizia serem menos dispersivas do que os homens.
O coronel também recebia políticos e personalidades que visitavam o
país em uma tenda beduína. Durante os encontros, ele era conhecido por
se proteger das moscas com um artefato feito de crina de cavalo ou com
um leque feito de uma folha de palmeira.
"Cachorro louco"
O ex-presidente americano Ronald Reagan chamou o líder líbio de
"cachorro louco" e, em 1986, autorizou um ataque aéreo a Trípoli e a
Benghazi em resposta a um ataque a bomba contra uma discoteca em Berlim
Ocidental - segundo os Estados Unidos, o atentado, que matou dois
militares americanos e uma mulher turca, teria sido realizado por
agentes líbios.
Os bombardeios americanos mataram 45 soldados e funcionários públicos
e 15 civis. Entre estes estava uma filha adotiva de Gaddafi.
Nos anos 1990, após ter seus esforços para unir o Mundo Árabe
rejeitados, o líder líbio se voltou para a África, propondo a criação de
um país-federação no continente, nos moldes dos Estados Unidos.
Para promover a ideia, ele passou a se vestir usando roupas que
carregavam emblemas do continente ou retratos de líderes africanos.
Mas no fim da década, com a Líbia em dificuldades por causa das
sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, Gaddafi acabou
assumindo a autoria do atentado de Lockerbie e de outros atentados, para
lentamente restabelecer o diálogo do país com os Estados Unidos.
'Não haverá mais guerras, ataques ou atos de terrorismo', disse o coronel, ao celebrar 39 anos no poder.
Desafios domésticos
Antes de ser derrubado por uma revolta iniciada no bojo da chamada
Primavera Árabe, o coronel se apresentava como guia espiritual da nação,
supervisionando a implementação do que dizia ser uma versão local de
democracia direta.
Na prática, segundo os críticos, Khadafi mantinha controle absoluto e
autoritário da Líbia. Dissidências ou críticas eram duramente
reprimidas e a mídia do país sempre foi rigorosamente controlada pelo
governo.
A Líbia tinha uma lei que proibia qualquer atividade de grupos
baseadas em ideologias políticas que eram opostas à visão de Gaddafi.
Segundo a organização internacional Human Rights Watch, o regime
prendeu centenas de pessoas por violarem a lei e sentenciou algumas à
morte. Também há relatos de tortura e desaparecimentos.
Brasil espera fim do conflito
O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse nesta
quinta-feira (20) que o Brasil espera que a violência na Líbia cesse, ao
comentar a notícia de que o líder deposto do país, Muamar Gaddafi,
teria sido capturado e morto.
'O Brasil espera que a violência na Líbia cesse, que as operações
militares se encerrem e que o povo líbio siga nas suas aspirações e
anseios, no espírito de diálogo e de reconstrução.'
O ministro, que está em Angola, tomou conhecimento de notícias não
confirmadas sobre a captura de Khadafi às 13:37 horário local (10:37 no
horário de Brasília), no momento em que a presidente Dilma Rousseff
estava reunida com o presidente do país, José Eduardo dos Santos.
Patriota interrompeu a reunião para dar a notícia aos chefes de Estado que, após informados, decidiram seguir com o encontro.